Lindonéia tivera uma infância saudável, como qualquer outra pessoa comum. Morava em uma cidade pacata e com pouquíssimos habitantes, o que a tornava conhecida. Filha única, fora criada por seus pais como a princesa da casa, embora tivesse muito pouco de princesa. Tinha tudo o que sempre quis, exceto algo que sempre almejou: a beleza.
Seus pais faziam de tudo para lhe fazer todas as vontades. Os melhores vestidos, as melhores maquiagens, as jóias mais caras. Porém, seus pais jamais lhe comprariam seu maior sonho: a beleza.
Lindonéia não se olhava no espelho, sua imagem era repugnante. E seu pai mandara tirar todos os espelhos da casa para evitar transtornos. Ela também não saia a noite, para não assustar as pessoas que passassem na rua. Casamento, para ela, era algo que ela via como impossível. Se casasse, seria por amor. Embora se casar fosse seu maior sonho, não permitiria jamais que um homem a quisesse por interesse. Ainda que, mesmo por interesse, fosse praticamente impossível que um homem suportasse viver sob o mesmo teto que uma mulher tão repugnante. Além disso, ela não se casaria de forma alguma com um homem feio. Lindonéia amava tudo que era belo. Não suportava a ideia de ter qualquer coisa fora dos padrões de beleza ao seu redor. E um marido feio não viria a calhar.
Em um belo dia, algo nada peculiar mudou a rotina da cidade. E, por seu uma cidade pequena, logo a notícia se espalhou: um homem havia chegado na cidade. Não se sabe de onde, nem como, mas ele era diferente de todos os que já haviam passado por ali. Era o homem mais lindo que qualquer pessoa pudesse ter visto. Mais bonito do que qualquer tipo de beleza masculina que você possa imaginar. Era impossível que uma mulher o olhasse e não o desejasse. Ele despertava desejo e interesse até nas mulheres mais sérias de Belezópolis. Os rumores eram de que viera em busca de seu grande amor. Pronto! Foi o que bastou para acabar com o sossego de todas as mulheres da cidade.
Não demorou muito até que Brad mostrasse a que veio. Ele tinha muito dinheiro, e viera a cidade com a intenção de comprar terras com o pai de Lindonéia. Ao chegar a casa de Lindonéia, e enquanto Brad conversava com seu pai, Lindonéia passou rapidamente pela sala e, eis o que aconteceu: Lindonéia - que tanto admirava o belo - espantou-se ao ver diante de si o homem mais bonito que já vira em toda a sua vida. Brad, por sua vez, ficou sem palavras, sem reação diante de Lindonéia. O que era comum, afinal de contas, todos ficavam completamente sem reação diante de sua aparência assustadora. O que ninguém sabia, é que o espanto de Brad foi por se ver diante da mulher da sua vida. Não conseguiu terminar os assuntos de negócios com o pai de Lindonéia. Disse que tinha se apaixonado e que queria se casar com ela. A surpresa dela foi tão grande, que imediatamente disse sim.
Dentro de uma semana estavam casados.
O casamento mais estranho que toda a cidade de Belezópolis já havia presenciado aconteceu. Ninguém acreditava na união de um casal tão desconexo fisicamente.
Os anos que se seguiram foram os mais felizes na vida do casal. Brad era um homem apaixonado, cego de amor. Mas o amor de Lindonéia era algo simplesmente incomparável. Brad era, sem dúvidas, o grande amor de Lindonéia, ela faria qualquer coisa por ele. Seu amor era tão grande, que ela não suportava sequer a idéia de perdê-lo.
Sem delongas, não descreverei tamanha felicidade. O texto ficaria um tanto meloso.
Certa vez, ao organizar os pertences do tão amado esposo, Lindonéia encontrou algo bastante estranho. Era um líquido em um pote de formato curioso, tinha coloração laranja fluorescente e aspecto pastoso. Quando abriu o vidro, um odor irresistível de churrasco invadiu o local onde ela estava. Aquele odor despertou em Lindonéia uma fome inexplicável, o que a espantou, não haviam se passado muitas horas desde o almoço.
Sem muito pensar saciou-se com aquele líquido engraçado. Era algo diferente de tudo que ela já havia provado, e tinha um sabor inexplicável de feijão! E enquanto bebia, uma sensação infindável de prazer tomava conta do seu corpo...
Lindonéia abriu os olhos. Se sentia estranhamente mais leve, embora com os pensamentos confusos. E que lugar era aquele? Deu-se conta de que não estava em casa. O quarto tipicamente masculino, a cama de casal onde estava, com os lençóis emaranhados insinuavam que não há muito tempo, outra pessoa estivera ali. E ela sabia: Não era Brad.
Desabou. Como pudera ela cometer tamanha atrocidade com o homem da sua vida? Lindonéia amava Brad e não faria nada que pudesse magoá-lo. Em um ímpeto de tristeza e dor, levantou-se em busca de sair logo daquela cena de adultério que tanto lhe machucava. Eis que se viu refletida diante de um espelho: Não se reconheceu. Lindonéia estava linda. Seu cabelo, seu rosto, seu corpo... Não era a mesma. Por um instante, esqueceu a dor da traição. Eufórica, se segurava para não gritar de tanta alegria. O que estava acontecendo? Mas é claro! Era o líquido. Não se lembrava de mais nada desde que o ingeriu. Era ele o responsável por dar a ela aquela tão sonhada beleza.
Voltou correndo pra casa. Em uma cidade tão pequena não foi difícil encontrar o caminho de volta. É claro que seu marido notou a mudança. Nunca havia dito nada a respeito do físico da mulher, não seria agora que diria.
Lindonéia já não se importava mais com a questão do adultério. É claro que amava seu marido. Mas agora, sua aparência física era só o que importava. Passou o resto do dia de frente ao espelho.
Os dias que se seguiram foram completamente repetitivos. O líquido não acabava, não importava a quantidade que tomasse, no dia seguindo ele estava intacto, como se nunca tivesse sido tocado. Todos os dias, Lindonéia dormia fora de casa. O adultério se tornou comum e seu marido cada vez mais distante. Parecia agora um figurante na vida de Lindonéia.
Ela notou uma mudança. A cada dia que passava, na mesma proporção em que ela ficava bonita, ele perdia um pouco de sua beleza. Lindonéia mandou revestir a casa de espelhos. Já nem se lembrava que era casada. Brad se trancou em um quarto fechado durante dias, enquanto Lindonéia seguia sua estranha e prazerosa rotina diária.
Como já era de se imaginar, alguns dias depois, Lindonéia foi até o quarto onde seu marido estava e tomou um enorme susto: A aparência do seu marido estava assustadora. Ela não conseguia olhar pra ele. Onde estava seu marido belo? A qualidade que ela mais apreciava nele. Ou talvez a única que apreciasse, afinal de contas.
Brad então lhe contou que sempre fora daquela forma. Até que conseguiu aquele líquido de uma feiticeira. Que era o que lhe fazia bonito. Disse que jamais tivera coragem de contar-lhe, e quando percebeu que havia perdido o líquido e se viu com uma aparência cada dia pior, trancou-se no quarto, tamanha era sua vergonha.
É claro que Lindonéia nem quis continuar escutando. Mandou-o embora. Ela não ficaria nem mais um dia ao lado dele. Não suportava o feio, e não o aceitaria ao seu lado com aquela aparência. Ainda mais agora que ela era de longe a mulher mais linda de Belezópolis. E por que não? Do mundo!
Sem demora, foi logo tomar o líquido. Seria a última vez. Estava livre para se tornar cada dia mais bela.
Quando abriu os olhos, algo atípico: pela primeira vez, desde que começara a tomar o líquido, familiarizou-se com o ambiente. Aquele era seu quarto. O lugar onde passara sua infância, e a cena não era de adultério. Parecia um dia comum da sua vida de solteira.
Saiu correndo do quarto em busca de explicação e a primeira pessoa que encontrou foi seu pai:
- Pai, o que aconteceu? Onde está Brad?
- Quem é Brad? - Perguntou seu pai, distraído enquanto lia o jornal de todas as manhãs.
Lindonéia não explicou. Já não havia necessidade. Tinha entendido tudo.
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