terça-feira, 12 de abril de 2011

Além do amor

Ele nunca me disse, mas eu desconfio seriamente que ele é um anjo disfarçado de pai.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Natural

Acordou.
Fez o que todos nós fazemos todos os dias. Cumpriu sua rotina habitual como se ainda tivesse todo o tempo do mundo a sua disposição. No entanto, sabia que aquele não era um dia comum. Algo muito ruim estava por vir, e não lhe restava mais nada, a não ser esperar.
Já no final do dia, chegou em casa e, com as mãos trêmulas - consequência da sua idade avançada - pegou uma xícara de café. E, enquanto degustava sua bebida preferida, lembrou-se de coisas das quais não se lembrava a muito tempo. Sentiu uma dor forte no peito. Parecia muito difícil respirar. Um filme da sua vida passava pela sua cabeça incessantemente. Percebeu o que estava acontecendo. Era o fim. Aquilo lhe entristeceu um pouco. Em outras situações, teria rido daquela ironia. 'Quanto clichê', pensou ele.
Fechou os olhos lentamente e esperou que a morte terminasse seu trabalho.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O último cigarro

Lá estava ele, em mais uma daquelas madrugadas de insônia. Quando tinha a impressão de que estava só e de que isso nunca ia mudar. De fato, era um homem só. Mas essa situação só o incomodava nessas madrugadas de insônia.
Talvez não estivesse completamente só. Tinha como companhia o cigarro, um litro quase vazio de vodca barata e o violão encostado em algum canto por ali.
Lembrou-se dela. Talvez, se não tivesse esses pensamentos perturbadores, conseguisse suportar a solidão.
Sentiu-se fracassado. Uma dor lancinante o envolvia.
Tentou pensar em algo. Qualquer outra coisa que não fossem aqueles olhos perturbadores. Impossível. Fechou os olhos. A imagem dela o envolveu. Ligou a TV. Lá estava ela. Talvez estivesse delirando. Não importava. O que importava era que mais uma vez ela estava lá tomando conta dele.
Cambaleou até o quarto. Abriu a primeira gaveta. Lá estava aquela arma que ele guardava a tanto tempo e que sabia que iria precisar um dia.
Voltou pra sala. Fumou o último cigarro, sem pressa. Tinha o resto da vida. E, naquele momento, aquilo parecia ainda mais evidente. Tomou o último copo de vodca. Uma última lágrima. O desespero. Fechou os olhos pela última vez. Pensou nela. Sentiu um alívio. Seria a última vez que pensaria nela.
Um som estrondoso tomou conta do lugar.
Um último suspiro...