Sem alma, não me restam motivos para viver. Sou só uma quantidade significativa de ossos chacoalhando por ai. Pensando bem, eu ando por aí sem propósitos a muito tempo. Hoje eu só oficializei isso e aceitei a minha condição de deslocada na sociedade.
Aliás, pra onde vai agora uma deslocada sem alma?
Eu olho para as pessoas como se eu não fizesse parte do mundo delas. E os seus assuntos já não me interessam. É como se não existisse um lugar onde eu me sentisse à vontade. Não importa onde eu esteja, se houver pessoas, eu sempre estarei desconfortável. E é como se não houvesse um propósito e nem esperança de que as coisas melhorem.
Eu cansei de finjir ser o que eu não sou só pra me inserir em um grupo que não é o meu. Um grupo que não tem o meu perfil. Cansei de esconder minha face em uma máscara só pra não ficar sozinha. Pra não ser apontada como a estranha das idéias diferentes.
A solidão não me assusta mais. Afinal, eu sei que meu único destino é mesmo a solidão. Eu afasto as pessoas de mim. Eu intimido as pessoas. Ninguém quer ser amigo de alguém que você nunca sabe quando está bem. Ninguém quer conversar com alguém que você nunca sabe como vai reagir. E eu, que acho pessoas imprevisíveis tão interessantes - que ironia! - descobri que são as previsíveis as que acumulam mais admiradores.
Nunca mais torno a abrir aquela caixa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário